Unhé


Entre o Bem e o Mauro deu uma pequena pausa de uma semana por um motivo justo, nobre, surreal, mágico, transcedental e, quiçá, colossal: o nascimento de minha pequena princesa Lívia. Além de ser o começo de uma mudança radical em minha vida de trocadilhos, textos publicitários, crônicas e derivados do alfabeto, a paternidade certamente vai me render loucas histórias que farei questão de dividir com vocês, amados leitores.
E para começar, um fato relativamente comum: os imprevistos na amamentação. Nos primeiros dias, a minha esposa teve um pequeno problema para amamentar. Horas a bebê não queria pegar o peito e outras o leite não vinha em volume suficiente. Resultado: perda de peso, leve stress, entrada no complemento e adiamento da alta. Não era a situação ideal, mas era o que tínhamos para o momento.
Decidimos, então, na hora que a Pediatra do hospital nos desse alta, recorrer ao serviço profissional. Uma amiga de minha esposa indicou uma Fonoaudióloga, expert em amamentação, para verificar o problema e apontar uma solução. Ela era pura comodidade: atendia em domicílio, à noite e com agenda livre para o dia da alta. Mas, em contrapartida, tinha um preço salgado. Mas valia a pena, frente ao desespero dos pais.
Recebemos alta, ligamos imediatamente para a Doutora e ficou acordado que ela iria em nossa residência por volta das 18h30. Começou uma corrida para adaptar a rotina da bebê à visita da médica. O objetivo era fazer com que a princesa Lívia tivesse fome neste horário, algo nada fácil para o primeiro dia com uma recém-nascida em casa.
Após recusas ao seio, brados retumbantes de fome, trocas desenfreadas de fezes neonatas, total descontrole estratégico e olheiras aprofundadas, o erro virou acerto: exatamente às 18h30 ela estava iniciando o processo de despertar.
Mas, caro leitor, você sabe que não viraria crônica se fosse perfeito assim, certo? Certíssimo. Mandamos uma mensagem para a Fono, relatando que a bebê estava pronta para os ensinamentos da arte divina da sucção pós-colostral. Ela respondeu que em cerca de 20 minutos estaria em casa. Mas o tempo passou e, a partir deste momento, se iniciou a Escala Internacional do Unhé. Não entendeu? O Unhé é a unidade de medida de choro neonatal, que incluem as 4 bestas de um recém-nascido: A cólica, a fome, o bolo fecal e o sono. O que determina a intensidade do Unhé é a quantidade de "és". É simples de captar: O unhéééééééé é mais desesperador que o Unhéé. Claro, não?
Pois bem, precisamente às 18h32 começou um "Unhé", aquele "acordei e quero comer". Tranquilo, nada muito difícil de lidar. Mas a profissional da amamentação não chegava. Sem mais delongas, ela chegou perto das 19h40. A escala já estava em 25 "és". Algo como um leão errante encontrando um cervo na Savana de Botswana após 2 meses sem comer.
Mas erra quem pensa que a sua chegada foi uma benção divina. Ela era a burocracia e o detalhismo em pessoa. Se apresentou, contou um pouco de seu histórico profissional, pegou os dados da Lívia, solicitou informações da mãe (inclusive a profissão). E os "és" só aumentavam em escala progressiva.
Gotas gélidas de suor rasgavam meu rosto aflito pela fome de minha cria. E a Doutora começou a contar um pouco sobre a história da amamentação, desde o período pré-Cambriano. Falou da importância, dos nutrientes, do estado de espírito da mãe, da influência das fases da lua, da cotação do iene, do ciclo de reprodução das lacraias albinas parasitas dos recifes de corais de Madagascar. E a pobre Lívia mudava sua coloração, perdia sua fonte de gordura e definhava de maneira angustiante.
A barreira das 20h30 foi ultrapassada, quando finalmente ela decidiu colocar em prática.
E não precisa ser um gênio do departamento de superdotados de Harvard para perceber que a técnica dela era muito simples e igualmente genial: fazer a bebê ficar com fome avassaladora. Neste caso ela mamaria até em uma raquete elétrica de matar pernilongos. Enfim, ela pode saciar sua vontade. E a doutora embolsou seu $$. Paguei mais pela palestra.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O negão da piroca

Pombinha Manca

Pergunta indiscreta