Filas


Se a máxima popular de que brasileiro adora uma fila for uma regra eu sou uma exceção. Eu simplesmente odeio filas, tento evitá-las a todo custo e quando não há outro jeito encaro a maldita com o pior dos humores. Mas há uma coisa, dentro dela, que me irrita ainda mais: pessoas que adoram puxar papo enquanto esperam sua vez. Lendo algumas crônicas que escrevi, tenho a total convicção que serei um velho ranzinza, tamanha a quantidade de coisas que violentam emocionalmente meu senso de humor e paciência tibetana (se bem que hoje nem os monges do tibet andam controlados espiritualmente. É Dalai na Lama).

Bom, voltando ao assunto que me trouxe aqui, não suporto pessoas que tentam demonstrar toda sua simpatia com conversas que não agregam nada na minha vida, feitas em um momento inconveniente com assuntos igualmente estúpidos. Ok, sei que a intenção destes moçoilos e raparigas (no bom sentido) é a de buscar uma forma de entretenimento enquanto aguardam um bom tempo na fila, dependendo de onde estão. Mas, particularmente, sou uma pessoa introspectiva nestas horas. Não quero conversa pelo simples princípio de que quem está em uma fila, está aguardando algo. Analisando o radical desta palavra, remetemos diretamente "aguardamos" ao verbo guardar. Por isso, estou guardado. A sete chaves, oito seus madruga e nove kikos. Sem contar as 34 donas florinda. Assim, não quero saber de trololô nem de lero-lero. O ser humano precisa de um tempo para se conhecer melhor e, para mim, não há melhor lugar que as filas.

Essa minha ira foi despertada ontem, enquanto fazia compras em um supermercado. Já passava das 21h30, estava cansado, havia somente 3 caixas atendendo e a senhora na minha frente estava com 2 carrinhos cheios. Eram ingredientes explosivos para uma mente perturbada como a minha. Ignorando os icebergs de fogo (sim, icebergs de fogo, imagina o tamanho da encrenca em que ela poderia se meter) que saiam de minhas retinas, a senhora começou a comentar sobre as chuvas que caíam há dias sobre a cidade. Com resposta curta e grossa, tentei esclarecer que não estava pra conversa. Mas ela insistia. E fui obrigado a dizer que estava cansado, de mau humor e que não queria prozear naquele momento. Magoei-a, mas evitei uma tragédia.

Pior são as pessoas que disparam a falar ou fazem observações que julgam engraçadas e esperam que você caia na gargalhada. Dia desses estava na fila do almoço, tranquilo e sereno, quando um senhor se aproxima e faz o seguinte comentário: "Você é um típico brasileiro, sempre coloca o feijão em cima do arroz. Hahohohoho". Primeiro, não teve a menor graça. Segundo, ele invadiu minha privacidade alimentar. Terceiro, não o conheço. Quarto, o que tem a ver minha nacionalidade com o fato deu colocar feijão em cima do arroz? Quinto, e se eu colocasse o cérebro dele, moído, em cima do arroz, de que país seria? Ou seja, ele foi inconveniente. Almoço é sagrado, um momento transcedental para você desvencilhar-se das agruras terrenas. Quase que um ritual espírita.

Então é isso, gente. Não gosto de conversar com estranhos na fila e para mim esse não é um lugar apropriado para socialização ou integração entre seres da mesma espécie. Só em casos extremos. Fila é chata por natureza, não torne a coisa insustentável.

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