Pastelão


Essa aconteceu no começo da minha carreira de publicitário, em uma agência modesta, porém muito importante na formação deste profissional que hoje sou. Mas não é sobre isso o assunto.  O dono da agência tinha o costume de, eventualmente, trazer guloseimas para degustarmos no meio da tarde. Além de matar nossa fome vespertina, a intenção era dar uma pausa nos jobs e integrar a reduzida equipe. Ficava um ambiente quase que familiar.
O "evento" acontecia geralmente às sextas e o cardápio era variado, indo desde esfihas do Habib's até salgados e doces mais elaborados. Era a hora mais feliz do dia.
Em uma dessas sextas, o cardápio era pastel. E naquele dia eu estava especialmente salivando alucinadamente por essa iguaria das feiras populares espalhadas por este Brasilzão de meu Deus. O cardápio já era definido no começo da semana, o que fazia aumentar a ansiedade por experimentar a sensação única de ter aquela massa crocante e oleosa com queijo derretido em minhas papilas gustativas em uma explosão de prazer e saciedade, uma liberação em massa de serotonina e o mais perfeito espetáculo da digestão humana. Os pedaços de pastel até descem as vias gástricas cantarolando canções da Disney ao lado de animaizinhos encantados da floresta, como pássaros, esquilos, borboletas e ursinhos fofos.
Voltando da crise de LSD, a sexta-feira, enfim, chegou. Por volta das 16h sinto o cheiro do pastel invadia a sala. O dono carregava um pacote com aquela típica mancha de óleo e disse: "Pessoal, tem minipastéis de queijo e palmito, tá tudo misturado". Aqui vale um adendo: Eu odeio palmito. Sentir o gosto dele me causa uma repulsa singular. Já imaginaram o desfecho, não? Mas será pior, podem acreditar.
Ao abrir o pacote, fiz uma rápida visualização e, na confiança, peguei o pastel que mais tinha aspecto de queijo. Tiro e queda. Queijo. Uma delícia, quentinho, crocante, saboroso, oleoso, maravilhoso. Mas só serviu para abrir o meu apetite. Peguei mais um pastel, da mesma região onde estava o primeiro, imaginando que ali era a zona de concentração do queijo. Já retirei abrindo minhas mandíbulas a quase 180 graus. Dei a abocanhada e….ops….ugh!….wow….cof cof…é palmito!!!
Daí você pensa: "Ué, qual o problema? Fala que não gosta e pronto". Mas não é simples assim. Primeiro que eu já havia mordido. Segundo, e mais grave, é que tenho um problema sério em revelar que não gosto de algo. Sou enjoado e meu cardápio de alimentos que me agradam é bem pequeno. Não estava afim de passar pelo constrangimento das pessoas me zoando naquele momento. Precisava, então, pensar em alguma forma de me livrar do pastel sem que as pessoas reparassem. E, modéstia a parte, sou bom nisso. Afinal, enfrentei situações como essa em outras ocasiões. Fiquei esperando o momento certo e…vupt! Enrolei o pastei em um guardanapo e joguei no lixo.
Fim do problema? Não. Eu ainda salivava pelo pastel de queijo. Olhei um pouco melhor a bandeja para decifrar a lógica de raciocínio do pasteleiro ao montar o pacote. Logo vi que alguns eram mais gordinhos. Certamente o de palmito. Peguei um mais magrinho e…..oh fuck motherfucker! Palmito de novo? Uma lagriminha de raiva escorria em meu rosto. Comecei a comer as bordas enquanto esperava o momento de sumir com o "cadáver".
Agora era questão de honra pegar um de queijo. Estatisticamente tinha 50% de chance de pegar o certo.  Com olhos de lince, encarei cada um dos minipastéis. Observei textura, tamanho, oleosidade e formato. Nesse último percebi algo diferente. Alguns pasteis eram quadrados e outros com bordas arredondadas. Ufa, enfim uma pista clara. Olhei no lixo e vi que o pastel que comi era arredondado. Bora pegar o quadrado. Como um moribundo errante e faminto do deserto do Saara, peguei e….ah, vsf! pqp! shit! Palmito de novo.
Com a classe de um lord, saquei o guardanapo, limpei a boca retirando o dito cujo, joguei no lixo e anunciei: "Bom, gente, estou satisfeito. Vou trabalhar que preciso agilizar alguns jobs". E fui para a mesa, frustrado e faminto.

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