Pequeno gafanhoto


Poucos sabem (talvez ninguém saiba), mas na minha adolescência eu fiz um passeio pelas artes marciais para saber qual tinha mais o meu perfil: karatê, taekwondo, judô e kung-fu, esta última o motivo desta crônica.
Foram cerca de 5 meses de kung-fu e o mais exótico era o estilo da luta: o louva-deus. Sim, amados leitores, os movimentos delicados e precisos de um louva-deus eram a referência e o alicerce desta luta oriental milenar. Eram coreografias até certo ponto constrangedoras e horas patéticas, mas que no momento de botar em prática deixava o oponente imobilizado e, dependendo do grau de força que o inimigo impunha, ela era usada contra ele, deixando-o severamente machucado.
Claro que fazer a luta do louva-deus era motivo de bullying entre os amigos e com o tempo fui refletindo. Sabe quando você se pergunta: "Pra que vou usar a fórmula da bhaskara na minha vida?". Pois bem, estava com o mesmo questionamento sobre usar os movimentos do inseto em uma situação real de risco. E larguei a luta.
25 anos se passaram e o fato tinha caído em completo esquecimento…Pelo menos até a noite da terça-feira anterior. Arrepia só de digitar. Estava na sala, por volta das 3h da madrugada, com a minha filha recém-nascida no colo, quando percebo a sombra de um vulto passando pela parede. Não dei bola na hora, achava que era reflexo das noites mal dormidas por causa da minha princesinha. Continuei na missão de acalmar a bebê. Minutos depois, o vulto passa ainda mais rápido. Sinal de alerta ligado. Sabe a cena do homem-aranha 3, quando ele está na igreja e percebe um vulto e sente o perigo? Pois foi exatamente isso que senti. Fiquei afoito e precisava localizar e entender o que era exatamente aquele vulto. Podia ser desde uma simples barata até as sombras enxofrentas de lúcifer tentando abduzir a minha alma ou, pior, de minha filha. Precisava me preparar para uma batalha sangrenta e psicologicamente estafante.
Para meu desespero, não consegui avistar o inimigo. E para piorar, um ruído parecido com "bzzzz…paf…bzzzz" congelou as terminações nervosas da minha espinha dorsal. Não tive dúvidas: protegi minha filha com meu corpo e atravessei o corredor, entregando-a para a mãe.
- "Amor, fique com ela pois tem algo na sala que não sei o que é", falei, ofegante.
- "Mas o que é?", perguntou minha esposa
- "Não sei, vou ver", respondi, já em direção ao campo de guerra
Chegando à sala, a tensão dominava o ambiente. A essa hora você, querido leitor, deve estar confuso, tentando fazer a ligação da introdução da crônica com essa noite tenebrosa. Calma, que logo chegaremos lá.
Com o chinelo em mãos, passos de flamingo e olhos de lince, tentei identificar o alvo e o tamanho do problema. E ele passa voando diante de meu rosto. Um autêntico louva-deus. Aquele mesmo que zombei e ignorei 25 anos atrás. Mas estava mais para adora-capeta. Ele parou na quina da parede e me encarou.
- "Enfim, te encontrei, pequeno gafanhoto", imaginei ele dizendo para mim
- "Quem é você?", dei asas à imaginação
- "Serei seu pior pesadelo. Você se atreveu a abandonar a missão do louva-deus. Ninguém sai impune dos ensinamentos do mestre-monstro-verde-voador-comedor-de-pedras. Quero ver se ainda acha que os movimentos louvadeusinos não servem para nada. Prepare-se para uma luta sangrenta, covarde".
Sabendo que não haveria clemência, parti para cima do inseto com o chinelo, mesmo vendo que não estava em posição ideal para esmagá-lo. E assim que projetei o chinelo em sua direção, o jogo se inverteu. O louva-deus saltou sobre meu corpo - imagine aquela cena de um mangá japonês, quando o inimigo ataca - e grudou em minha camisa.
- "Ahhhh, ughhhh uohhhhh affff iááá", gritei como se fosse atacado por um leão faminto das savanas africanas.
- "Aiii amor, o que foi", gritou a esposa, achando que um ladrão estava em casa
Com um tapa, me livrei do inseto, que voou em direção a um vaso que tenho na sala. Corri para o quarto e contei que havia um louva-deus estava na sala.
- "Ah, larga de ser frouxo, deixa ele e vem dormir", desdenhou, com requintes de deboche.
Decidi não retrucar, ela não entenderia uma vingança planejada há 25 anos. E preferi dormir, meu sono não suportaria uma batalha que poderia durar toda a madrugada. Claro que não preguei o olho, ainda mais sob forte ameaça a toda minha família. Mas o cansaço me venceu e fui acordar lá pelas 7 da manhã. Assustado. Olhei para o lado e minha esposa estava lá. Olhei para o berço e a bebê dormindo como anjo.
Fui até a sala, andei pela casa e nada do louva-deus. Poderia ser um alívio, mas não. Talvez fosse só o começo de um pesadelo interminável. Mas a vida não poderia parar. Tomei meu café, coloquei a roupa, fiz os procedimentos de higiene e fui trabalhar. No caminho até a porta, "creck". Pisei em algo. Sim, era o louva-deus. Matei sem querer. Ou será que meu instinto louva-deus de 25 anos atrás acordou e venceu o inimigo? Nunca saberei...

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