Simplesmente tocha 2


E o tocha está de volta. Tocha é um amigo de infância com desvio comportamental severo. Tanto que ele está rendendo a segunda crônica. A primeira, escrita em 8 de junho deste ano, hoje é a mais lida de todo o blog. A parte 2 provavelmente não ficará atrás nos quesitos insanidade, doença mental e What the Fuck? Apertem os cintos, ajeitem-se nas cadeiras e let's read, motherfuckers.
Foi em meados de 1994. A galera toda se reunia em uma espécie de boteco/padaria chamado Blackout. Éramos praticamente os donos da bodega. Umas 30 pessoas dispersas em mesas aleatórias, bebericando a valer e disparando pérolas verbais pelos 4 cantos do recinto. Uma viagem dos ogros da idade média para nosso período contemporâneo. Quem passava pelo local, certamente se assustava com um bando de cabeludos metaleiros rindo como zebus no cio.
E as noites de sexta e sábado sempre eram assim: um lugar improvável, pessoas impagáveis e situações pitorescas.
Vale comentar um fenômeno extremamente comum em qualquer bar: a presença de figuras carimbadas da noite. Aquele poeta improvisador, a reencarnação de Raul Seixas, o profeta do apocalipse e outros tipos exóticos da fauna boêmia. E na noite em que tocha foi o protagonista, não foi diferente. Mas antes de descrever o ser que apareceu, é preciso contar como foi a noite do nosso amigo demente.
Naquela noite, tocha não estava muito afim de ir ao Blackout. Preferiu ficar em casa com uma outra turma, usando tóxicos e bebendo whiskie. Pela sua voz ao telefone, notei claramente que ele estava curtindo um bode, meio cabisbaixo, antissocial e com poucas palavras. Preferimos não insistir muito por sua presença que certamente abrilhantaria a noite. E seguimos a vida.
Lá pelas 3 horas da madrugada, recebemos um telefonema. Era um dos integrantes da turma que ficou com o tocha na casa dele. Ele estava questionando se ainda estávamos lá. Após a afirmativa, recebemos a notícia, então, que ele estava a caminho. Foi um misto de alegria e tensão. Ao mesmo tempo que poderia significar boas risadas, também poderia simbolizar o medo, pois ele estava sob efeito de entorpecentes e álcool misturado com leve depressão. Era uma incógnita o que estaria por vir.
O tempo passou e nada dele. O bar já estava esvaziando. Sobraram eu e mais uns 3 amigos. O bar fechou e ficamos na mureta dele, bebendo as últimas latas da noite e esperando o tocha. Por volta das 4h30 o carro estaciona. E tocha está desmaiado, no banco de trás. O pessoal trouxe mais algumas cervejas e whiskie para dar um gás adicional e prorrogar nossa estada no recinto. Ficamos conversando, já cientes que o tocha dificilmente daria o ar da sua presença.
Já perto das 5h, uma mulher se aproxima. Velhinha, por volta de uns 70 anos, rosto judiado pelo tempo, roupa rasgada e suja. Se apresentou como catadora de latinhas para reciclagem. Mas, pasmém, não pediu latinhas. Simplesmente começou a disparar palavras sem nexo, de forma afoita e agressiva. Entramos na onda e retrucamos. Iniciou-se um legítimo papo de doido. Juro que não lembro o teor, pois estava bem embriagado naquela hora. Mas lembro perfeitamente o desfecho disso tudo. A conversa com a senhora ficou tão acalorado que não tive dúvidas: me posicionei em posição de luta e gritei "ah, então é briga que a senhora quer?" e realizei movimentos descoordenados, simulando uma briga. Tudo era pura brincadeira e gargalhadas.
Não para TOCHA….
Ao ver a cena e em questão de segundos, tocha projetou seu corpo para fora do carro, veio correndo em nossa direção, pegou o braço da pobre catadora de latas e exerceu um impulso tão forte que o corpo da mulher foi lançado em uma altura de mais de 2 metros fazendo uma curva de 180 graus do solo. Algo próximo de um ippon. Ao final, ele fez a expressão parecida com a de Bruce Lee após o nocaute com direito ao grito de guerra. Algo como "Auááá erê iiiii mauaschi dôôôô".
Você deve estar pensando: "nossa, ela deve ter quebrado várias costelas ou até morrido". Não. Ela simplesmente se levantou, largou a sacola e fez posição de luta, desafiando para mais um round. Surreal. As risadas não permitiram a continuação da luta. E tocha voltou ao fundo do carro. Já tinha dado sua contribuição para a humanidade.

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