Zzzzzzz


Essa aconteceu quando tive que escolher a cama para minha nova casa. Descobri uma avenida, aqui em Campinas, que tem uma grande variedade de loja de colchões. Em princípio, a busca pelo ninho de amor de um casal deveria ser corriqueira em sem percalços. Mas havia um agravante. Estava há alguns dias de contrair matrimônio e entregar o projeto final de minha pós-graduação. Resumindo: noites mal dormidas, sono atrasado e cansaço físico-emocional, enfim, estava como Cristo na cruz, pregado.

Parei meu carro na "avenida dos sonhos" e comecei a perambular pelas lojas atrás da cama ideal com um preço que não fosse um pesadelo. Entrei, então, na primeira loja, descrevi a que eu queria e ele começou a mostrar os modelos. Como todos sabem, para ter certeza da qualidade é preciso fazer o sleep-drive, ou seja, deitar-se para conferir características como conforto, resistência e durmabilidade. E isso para quem está com o sono em deficit é pior que tortura chinesa. O vendedor convidou-me a deitar para sentir a qualidade. Deitei-me. O colchão me abraçava com ternura e paixão. Enquanto ele proferia palavras como "Então, esse colchão possui molas ensacadas, uma camada extra de espuma, blá, blá, blá..." eu entendia "Nana nenê, que a cuca vem pegar".

A parte mais difícil era deslocar-se de um colchão para outro. Primeiro porque o colchão que estava deixando para trás suplicava por minha permanência e segundo que cada colchão em que eu me deitava sugava minhas energias. Se alguém filmasse minha caminhada pela rua, perceberia que eu andava cada vez mais em slow motion. Era clara a diferença dos passos iniciais e os de meia hora mais tarde. Algumas pessoas até pensariam que eu acabara de sair de um loja de ervais medicinais jamaicanas, de tão "legal" que eu estava. Não sei se chegaria até a última loja.

Após tantas lojas, já não ligava mais para os atributos do colchão. Só o preço me interessava. Queria fugir desta tortura deliciosa, aconchegante, reconfortante e envolvente. Eu fico imaginando o quão difícil é ser um vendedor de colchões sem correr o risco de dormir no serviço. Aquelas dezenas de camas sedutoras, implorando por alguns minutos de prazer e deleite......um legítimo convite à repetição infinita das últimas letras do alfabeto, ou seja, zzzzzzzzzzzzz!

Após mais de 3 horas me arrastando entre lojas, cheguei onde iria comprar a cama. Já nem esperava mais o convite para deitar-me. Já estava com o rosto abatido, incapaz de dizer uma palavra com mais de 5 letras, impossibilitado de formular uma frase e com os movimentos do corpo bem limitados. Já não queria mais ouvir a descrição do produto. Fomos diretamente no preço. E, para minha felicidade, ouvi um valor agradável.

Obrigação cumprida, hora de voltar. Fui para a casa da minha noiva, almocei e, como não poderia ser diferente, tirei um cochilo vespertino, afinal, a manhã foi bem agitada!

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