Não vale 1 real


Dias atrás eu experimentei a sensação de que havia um fio de luz de esperança na humanidade. Eu explico. Precisava comprar uma abraçadeira para conectar o esguicho na torneira. Com a autruísta intenção de dar uma força para a economia do bairro onde moro, procurei o produto em uma lojinha modesta. O dono, um senhor com seus 60 e poucos anos, cabelos brancos de algodão colhido pelas freiras cantoras da Romênia, todo bonachão, com suas bochechas rosadas e esbanjando simpatia e simplicidade, me recebeu com uma alegria contagiante, todo solícito.

- "Pois não? o que o nobre amigo deseja?", perguntou o dono
- "Eu preciso de uma peça que conecta o esguicho na torneira, mas não sei o nome", respondi.
- "Ah, abraçadeira....está na mão", replicou, com total segurança e propriedade
- "Isso mesmo. Quanto custa?", indaguei
- "Um real", ele respondeu, sem titubear.

Olhei minha carteira e só havia uma nota de 50 reais. Pensei: "Poxa, sacanagem, ele foi todo fofo, cut cut e ownnn. Não posso, em pleno sábado, acabar com todo o troco dele. Vou ver se acho moeda."
Vasculhei os bolsos e achei 45 centavos. Ele, observando meu desespero, falou:

- "Não se preocupe, passe outro dia aqui e deixe o dinheiro", recomendou
- "De jeito nenhum, faço questão de pagar", falei
- "Imagina, não se preocupe, de verdade. Passe aqui outra hora e deixe", completou

Gentemmm, que fofucho. Um homem raro, comerciante a moda antiga, onde o que vale é a palavra. Mas mesmo assim fui até o carro e procurei por mais moedas. Achei mais 10 centavos. Entreguei e ele, muito contrariado, recebeu.

- "Mas larga de ser teimoso, passe aqui outra hora e deixe. Pode ser segunda, daqui um mês, um ano, não se preocupe."

Nessa hora saiu uma lagriminha de emoção. E aumentou o peso na consciência. Faria questão de passar e entregar os 45 centavos restantes. Mas com a correria do dia a dia, me esqueci de fazer isso já na segunda. Minha memória só avisou na quarta, quando estava na rua, resolvendo alguns assuntos:

-"Meu Deus, os 45 centavos, que mancada a minha, vou fazer isso já. Não me perdoaria se esquecesse após essa lição de cidadania que o fofucho da abraçadeira deu.", pensei alto.

Olhei no carro e contei as moedas. Só 40 centavos. Não é possível. Não poderia voltar e prometer uma outra visita para trazer 5 centavos. Seria o cúmulo da pobreza financeira e, principalmente, de espírito. Achei no porta-luvas uma moeda de 1 real. Resolvido.

Cheguei na loja e o dono estava na porta. Desci do carro, com a moeda de 1 real na mão, e fui em direção a ele.

- "Bom dia, demorou, mas aqui está", falei, todo feliz da missão cumprida e esperando o troco
- "Imagina, não precisava", disse ele, mais fofoleto do que nunca

Esperei que ele entrasse para pegar o troco, mas sua maneira de receber o dinheiro deixou claro que ele não faria isso. Como já havia excedido o pacote da franquia da pobreza, resolvi não cobrar e dar por encerrada a negociação. Mas com uma terrível sensação:

- "Que fofucho, que nada. Safado de uma figa, espertalhão, me levou 55 centavos, por isso o país está assim...", pensei, todo decepcionado.

E, assim, o fio de luz de esperança se apagou.

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