Picado


No começo deste ano uma notícia caiu como uma bomba em minha vida: fui desligado da empresa onde trabalhava. Em época de crise, inflação e altas taxas isso poderia ser um desastre, então eu precisaria ser rápido para me recolocar ou pelo menos amenizar o prejuízo.
Nessa hora toda ajuda é bem-vinda e uma pessoa próxima sugeriu que eu fosse com ele em um centro espírita para me guiar e iluminar nesse momento tão difícil. Aceitei de coração aberto e fui até o ritual.

Após as solenidades inaugurais, cada santo e caboclo se acolheu em seu respectivo corpo e as primeiras pessoas foram chamadas. Não demorou e chegou a minha vez. Fui consultar o Pena Dourada, o boss da coisa toda. Falei das minhas amarguras, do desemprego e tudo que me levou até lá. Depois de dezenas de misifios, palavras indecifráveis e algumas baforadas de charuto, Pena Dourada foi categórico: precisava fazer um trabalho pesado. Na verdade, 4. A sua assistente anotava tudo no papel e me entregou uma lista maior que a lista de exigências do Justin Bieber.

Dias depois comprei todos os ingredientes para os 4 trabalhos: um banho de 7 ervas, uma defumação na casa inteira, 1 vela de sete dias para o anjo da guarda e um ritual em uma encruzilhada. Era tanta coisa que já achava que após feito isso eu seria convidado para ser presidente da Rede Globo.

Tudo separado, era hora de começar. E deu tudo errado. Vamos por partes:

A defumação

Basicamente precisava reunir todos os ingredientes e colocar, aos poucos, em um defumador com um carvão incandescente enquanto percorria os cômodos da casa, de costas. Para começo de conversa, não conseguia acender o carvão. Coloquei uma dose extra de álcool superinflamável. Queimei a mão. Derrubei o defumador. Pegou fogo em um tapete de borracha que minha filha gostava de brincar. Tentei de novo. Derreteu o esguicho. Caiu tudo de novo. Fiz o percurso com o que sobrou. Uma defumação picada. O mel da mistura de ingredientes – entre eles o açúcar – agregado com o odor forte de trabalho pesado para entidades deixou o rastro pela casa inteira. Fail total.

O banho de ervas

Sinceramente não entendi a instrução neste caso. E fui só perceber chegando em casa. Não sabia se era um banho de 7 ervas durante uma semana. Ou uma vez por semana. Se era para preparar todo dia ou preparar uma vez e fazer 7 porções. Se tinha que jogar as folhas em água corrente ou no lixo. Enfim, fiz o que me deu na telha.

Anjo da guarda

Era uma vela de 7 dias. Durou 6.

Encruzilhada

Esse era o mais complexo. Precisava ir a algum lugar onde passasse uma linha de trem, acender umas velas, fazer uma cruz com lados vermelhos e brancos em papeis de seda, colocar um copo de cerveja, fazer o pedido, deixar tudo lá e sair sem olhar. Fui até um local com tais características, mas o terreno era irregular. Ventava muito. Precisava ser rápido, pois pessoas poderiam ver e me interpretar mal. Não conseguia acender as velas. As sedas voavam. Com o nervosismo, uma das velas quebrou-se ao meio. Abri a lata de cerveja e o lacre não abriu. Forcei com a chave do carro. O terreno não possibilitava que as velas ficassem de pé. O vento quase acabou com os palitos de fósforo que havia levado. No fim, fiz como deu.

Resumindo: todo o trabalho ficou picado. E hoje estou trabalhando picado, prestando serviço para várias agências. Até que fez sentido, não?

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