O misterioso caso de Bianca Nepobusceno


Essa crônica retrata exatamente o que eu sonhei na noite passada, enriquecida com detalhes inventados da minha parte e um final com toque padrão Entre o Bem e o Mauro:

Bianca Nepobusceno de Alcântara nasceu em Governador Valadares em meados do outono de 1977. Filha única de um pai bancário e a mãe contadora, moradora de um bairro de classe média do município, Bianca era uma mulher batalhadora e sonhava com uma carreira de advogada. Para isso, fazia Direito em uma importante faculdade em Belo Horizonte.

No último ano, na festa de formatura, Bianca conheceu um lindo rapaz por quem se apaixonou perdidamente. Não demorou muito, e essa história repentina foi parar no altar. Tudo indicava uma vida de felicidades plenas para Bianca, mas ainda na lua de mel algo estranho aconteceu: ela acordou muito enjoada e com a visão turva. Em princípio, seu marido achou que poderia ser uma gravidez, mas Bianca começou a vomitar sangue sem parar.

Seu marido a levou correndo ao pronto socorro. O médico pediu alguns exames rápidos mas não detectou nada de anormal. Sugeriu ser uma virose. Indicou um remédio e a liberou. Mas os sintomas só se agravaram. Bianca chegou a desmaiar enquanto dirigia, quase provocando um grave acidente. Eles, então, decidiram procurar um neurologista.

Após uma bateria de exames, o médico também não encontrou nada. Mas claramente o estado de saúde de Bianca piorava. Decidiram então, juntar umas economias e procurar ajuda no exterior, mas especificamente em um importante centro de estudos americanos em neurologia. Mais uma bateria de exames, muito mais detalhados e, enfim, compreenderam o que estava acontecendo. Ela estava cometida por uma doença rara, denominada Hipermetropia Convergente Miocardiana da Eloquência Neurotransmissora. Apenas 0,077% da população apresentava esse quadro e a doença ainda era pouco entendida pelos cientistas.

Desesperada, Bruna começou a chorar. Mas seu marido não se deu por vencido. Era questão de honra buscar um tratamento para essa doença, nem que para isso fosse preciso pagar do próprio bolso as pesquisas. Conversando com importantes pessoas do meio, ele tomou conhecimento de um tratamento experimental, mas muito caro, no interior da Inglaterra. Sem pestanejar, eles venderam todos os seus bens para iniciar a busca pela cura.

Foram meses de exames na Holanda, cirurgias na Inglaterra, pós na Irlanda e medicação na França. Era um tratamento muito agressivo. Bianca perdeu um rim, cabelos e ficava noites sem dormir, devido às fortes dores que na verdade eram efeitos colaterais da técnica empregada pelos médicos.
Quando os médicos praticamente jogaram a toalha e praticamente decretaram sua sentença de morte, Bianca apresentou uma surpreendente melhora. Logo, os cientistas entenderam a razão: o coquetel de antibióticos associados às sessões de aplicação de urânio enriquecido diretamente no crânio. O marido não suportou a carga vivida durante os meses e com a notícia desabou a chorar de alegria.
Bianca, enfim, pode comemorar a cura da Hipermetropia Convergente Miocardiana da Eloquência Neurotransmissora e viver o amor que havia sido paralisado pela doença. Aproveitaram que estavam na Europa e fizeram a lua de mel. Mesmo sabendo que começariam do zero, já que todos os seus bens foram desfeitos pelo tratamento.

Mas a vida parecia querer pregar outra peça em Bianca. Anos depois, na noite de 4 de Fevereiro, ela caiu no sono e tomou um susto quando acordou. Estava em um leito de hospital. Ela olhou para o lado e viu seu marido, entristecido.

“O que aconteceu?”, perguntou Bianca, desesperada.
“Calma, amor, o médico está vindo”

Minutos depois, o diagnóstico:

“Infelizmente a Hipermetropia Convergente Miocardiana da Eloquência Neurotransmissora voltou", disse o doutor.

Bianca chorou compulsivamente. E antes que pudesse falar, o médico completou:

“Calma, hoje a medicina evoluiu. Basta tomar esse comprimido uma só vez que você se cura definitivamente. E ele custa 50 centavos. Mas nem precisa comprar, tenho aqui uma amostra grátis.”.


Bianca recebeu alta e saiu feliz e contente, cantando uma canção. Mas ao atravessar a rua para ir até o carro, estava desatenta e não percebeu que uma manada de alces montanheses havia escapado do zoológico municipal e corria em direção à Bianca. Ela foi pisoteada por 57 alces obesos. Seu corpo ficou irreconhecível. Um triste fim para Bianca Nepobusceno.

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