Vaguinha difícil



Eu trabalho em um bairro bem requisitado de Campinas, onde ficam os bares, prédios comerciais chiques, lojas de griffe, restaurantes badalados e gente bonita (sou uma exceção). O problema que impede que meu trabalho seja todo este glamour é a hora de estacionar. Tem dias que achar uma vaga é pior que um parto de búfalo albino obeso saindo do útero de uma chihuahua virgem. E muitas vezes caio na tentação de parar em lugar que sei que é proibido, confiando na sorte e na proteção divina (sim, é errado, eu sei, mas depois que vi um carro sendo guinchado, parei com isso).

E hoje foi um desses dias de parar longe. Foram cerca de 20 minutos até achar. Confira a saga, minuto a minuto.

1” - Passo calmamente na rua do prédio onde trabalho, procurando aquela vaga abençoada por Deus e bonita por natureza. Nada.

2” - Tento o quarteirão seguinte, rindo da minha inocência em achar que todo dia uma vaga privilegiada estará aguardando por mim com tapete vermelho, buquê de flores e uma tulipa de cerveja.

3” - Vejo que hoje o bairro está movimentando e calculo se meu carro cabe em vagas um pouco mais apertadas. Mas decido não arriscar.

4” - Não vou muito mais longe. Resolvo dar uma volta e retomar o caminho inicial, na esperança de que alguém esteja saindo.

5” - Nada feito. Sigo em frente e decido avançar mais alguns quarteirões. Avisto um caminhão saindo. Mas era vaga de carga e descarga.

6” - Entro em uma rua alternativa, vejo uma vaga, dou a seta, tento ajustar o carro, mas presssinto que terei dificuldade de entrar. A vaga é na curva e apertada. Desisto.

7” - Amplio o raio de verificação, mas noto que a coisa está bem crítica. Movimento bem acima do normal.

8” - Percebo uma vaga no outro lado da rua. Acelero, mas quando chego perto, um infeliz, abestado e sujismundo de uma figa chega primeiro.

9” - Tento a direção Sudoeste do prédio, onde nunca havia passado antes, mas tinha tanto carro que parecia o pátio de uma montadora de carros

10” - Preso no congestionamento.

11” - Ainda estou aqui.

12” - Na mesma rua, uma senhora manobrando, um caminhão descarregando e um carro parado em fila dupla.

13” - Volto à rota inicial. E nenhuma fucking mother fucking crazy fuckin man, oh god, so fuck vaga aparece.

14” - Decido sair sem rumo, sem destino, sem me importar com distância, para pegar a primeira vaga que aparecer. Qualquer coisa pego um uber até a agência.

15” - Acho a maldita vaga. Paro bem longe da guia. Dane-se, estava irritado.

16” - Caminho até o trabalho, xingando tudo e todos mentalmente.

17” - Gotas de suor se formam em meu corpo. Estou ofegante, irritado.

18” - Tropeço em uma pedra. Dedo doendo, ofegante, suado e irritado.

19” - Acelero os passos, estou atrasado, com dedo doendo, ofegante e irritado.

20” - Chego ao prédio. E uma cena me comove: uma vaga bem em frente à portaria.

Agora fechem os olhos. Imaginem nesta vaga uma fanfarra de idosos do Lar do Senhorzinho Feliz tocando uma marchinha. Artistas circenses fazendo número de equilíbrio com bolas coloridas. Um homem em uma perna de pau dançando. Confetes e serpentinas jogadas em minha cabeça. E uma canção com a seguinte letra:

“Oxa, oxa, oxa, se fode aí, seu trouxa. Parara tibum.”

Foi isso que senti nessa hora.


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