Uma fórmula promissora


Essa aconteceu comigo nos áureos tempos de rock'n'roll all night and party every day na minha vida. Era um garoto que como alguns, gostavam de Sepultura e Iron Maiden. Nessa época, eu tinha uma banda de metal e convivia com cabeludos vestindo seu uniforme preto para chocar a sociedade com músicas pesadas e palavras contra o sistema.

Uma particularidade ocorria nessa fase da minha história: tinha o poder de atrair pessoas incomuns. Ok, completamente loucas. Seja na atitude, no visual ou no mental. Seres provindos das catatumbas de crazy little thing called rock. E um deles merece um destaque especial e, por isso, é motivo dessa crônica. Seu nome: Cássio, um dos guitarristas de uma das formações de minha banda.

Cássio era muito louco. Mas ele tocava bem. Sério, ali deveria ter um coquetel de drogas, hormônios estragados, fórmulas proibidas de laboratórios clandestinos da cisjordânia, desvios de neurônios e uma pitada de surrealismo cubista. Tinha horas que era difícil entender sua linha de raciocínio em uma conversa. Sem contar que ele misturava assuntos em um mesmo bate-papo. Mas, não sei, havia algo de misterioso nele.

A banda acabou, alguns anos se passaram, até que um dia ouço a campainha de minha casa tocar. Era Cássio. Achei estranho, pois ele nunca me visitou sem ser nos ensaios. E o mais estranho: ele veio andando de sua casa até a minha. Algo em torno de 10 km. Fui até a porta e ele disparou:

- Pegue esse papel. Eu desenvolvi uma fórmula sensacional. Estudei bastante até chegar nela. Fique com ela.

Ele entregou na minha mão e foi embora, como um gnomo saindo do arco-íris após uma grande tempestade ácida. Olhei o papel e vi um garrancho que lembrava uma fórmula de corrente elétrica misturada com física e química, cheio de siglas e números. Pensei: “caraca, esse cara é de outro planeta, só pode!”. Dobrei o papel e coloquei de qualquer jeito em uma gaveta. Nem dei bola ao fato.

Mas uma pulga que mora nos fundos do meu pavilhão auditivo resolveu não dar fim ao episódio. Será que a fórmula faz algum sentido? Seria ele um gênio incompreendido me usando como agente emissor de sua genialidade para a comunidade científica? Estaria eu com meu passaporte para a riqueza? Seria a fórmula do meu passaporte para o mundo business? Seria eu a capa da próxima Forbes? Vi alguns filmes com este mesmo enredo. Peguei o papel de novo, mas minha limitação intelectual não deixava eu entender.

Lembrei-me de um amigo que estava terminando a faculdade de engenharia elétrica. Era ele mesmo quem exterminaria minhas dúvidas. E ele era de confiança, não passaria a perna para ficar com a fórmula. A não ser que fosse a fórmula divina que resolveria toda a desgraça humana. Sabe como é, me dê poder que saberei quem realmente sou. Mas não havia outra solução.

Liguei para o amigo, combinei um café. Ok, cerveja, quem estou querendo enganar? Após algumas piadas, besteiras e novidades, iniciei o assunto. Ele se mostrou ao mesmo tempo incrédulo, mas interessado. Dei-lhe o papel. Ele olhou, curvou a cabeça, franziu a testa e emitiu alguns gemidos duvidosos. Estava ansioso com estes segundos de análise. Até que ele deu seu diagnóstico.

- Cara, isso não faz o menor sentido. Não tem aplicação. É uma mistura de nada com nada. Simplesmente um devaneio de uma mente confusa. Não serve para nada.

E, assim, meu sonho de ser o homem mais influente do mundo acabou.


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