Quando a vida toma outro rumo


Preciso confessar mais uma coisa do meu passado. Eu fui um gradissíssimo vagabundo. Da pior espécie. Um coçador profissional. Profissional, não, pois não trabalhava. Na verdade era um daqueles adolescentes que sonhavam ser um rock star. A banda até teve lampejos de que poderia ter algum sucesso. Gravamos CD, obtivemos boas críticas de publicações do segmento, agendamos alguns shows em casas noturnas, mas, apesar disso, o retorno financeiro era pífio. Mal dava para pensar em pagar algum tipo de conta. Lutei até certo ponto para que a música fosse meu ganha pão. Mas foi o pão que o diabo amassou.

E enquanto eu vivia minha rotina de ensaios e showzinhos em botecos fuleiros, os rapazes da minha idade já estavam inseridos no mercado de trabalho. Poderia até aqui defender a classe, afirmando que músico é profissão, mas admito que eu não me encaixava nesta categoria. Era um projeto mal acabado de baterista. Gostava da farra de tocar. Do glamour que o sex, drugs and rock poderia me proporcionar. Mas a preguiça de correr atrás era maior.

Foi então que o caminho da vida chegou até uma bifurcação onde eu precisaria definir entre continuar a vagabundagem por um devaneio juvenil ou tomar vergonha na cara. E a decisão veio de uma forma bastante traumática.

Era uma fase onde os ensaios eram emendados com bebedeiras e fumacês até altas horas da noite. Não havia feriados nem fins de semana. Rock and Roll all night and party every day. E o mais grave: eu estava com nada mais, nada menos que 20 anos de idade. Idade onde alguns já são presidentes de empresas, donos de startups, empreendedores de sucesso e formadores de opinião. E eu, um garoto que, como ninguém, amava dormir e se divertir.

Meus pais claramente se sentiam desconfortáveis com a situação, apesar de mostrar certo apoio com o sonho de ser Rock Star. Mas o tempo foi passando e a chance do estrelato foi se afastando. E isso foi me deprimindo. Os ensaios foram ficando mais raros. Os amigos músicos foram se dividindo em 3 categorias: os que apostavam na música e se dedicaram a tal. Os que desencanaram e foram tentar um emprego convencional e os vagabounds, perdidos, sem saber onde ir. Eu fiquei nesta última. “Bom, vamos ver o que a vida me reserva. Enquanto isso, vou descansar”, pensava.

E a vida me deu um chacoalhão. Pra mudar o rumo. E hoje agradeço. Tudo aconteceu em um dia da semana. Estava dormindo e um barulho ensurdecedor de panelas caindo e cachorros latindo freneticamente me fizeram despertar assustado. Irritado, bradei: Porra, caceta, não se pode dormir em paz nessa casa, não?

Até aí você pode achar que é normal. Mas um detalhe vai mudar tudo na sua percepção: Eram 13h41. Sim, amigos. Uma terça-feira, 13h41, dia normal de trabalho, e eu, com meus 21 anos, dormindo como uma capivara manca. Sem medo de ser feliz. Sem um pingo de vergonha na cara. Fiquei estático, olhando para o relógio. 13H41, 13h42, 13h43, um filme passava pela cabeça, a consciência ganhava peso, a vida perdia sentido, pequenos hologramas de tenentes militares da força especial do exército americano gritavam internamente: You are shit. You are fucking vagabound, mother fucker. Move your fat ass, idiot. Now!!!!!!!


Acordei assustado. O cachorro que latia me olhou com desdém. Minha mãe me olhava com ar de coitadinho. Meu mundo desabou com as panelas. E, enfim, minha vida tomou outro rumo.  

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